EU SOU O RIO

“O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos” (Lao-Tsé)

Eu sou o rio
Rio de alma lavada
De alma líquida
Corro manso pelas entranhas da terra
E pelas entrâncias dos rochedos
Eu sou o rio e não guardo segredos
Venho lá das alturas de uma simples nascente
Eu sou o rio cuja água mata a sede de bicho
Eu sou o rio cuja água mata a sede de gente
Eu sou o rio como o Cão Sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto
Minha linguagem é clara, é água, às vezes, sinuosa, mas é papo reto
Eu sou os dísticos de A Vida De Um Rio Morto, de Carlos Nejar
Eu sou a água fresca que o calor faz desejar
Venho de várias jornadas e caminhos
Sou água doce carregada de mercúrio, lama e dejetos
Eu sou o Capibaribe, o Amazonas, o Tietê
Já me cortaram os braços
Já me represaram as ideias
Já me calaram outras nascentes
Já não tenho mais plateia
Já secaram minhas margens
E ainda assim eu persisto, eu existo, dramático
Dizem por aí que água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Será que ainda banharei gerações futuras?
Eu rio, mas choro também quando dilúvio
Eu sou calmo, mas tenho meus momentos de fúria
E desço com força pelas planícies
Arrancando roupas dos varais
Derrubando árvores dos quintais
Não tenho culpa se constroem casas onde antes havia peixe
Por onde eu passo, eu avanço, não se queixe
Eu sou verbo, não substantivo apenas
Sou a inspiração de muitos cantos e poemas
Peço perdão pelas enchentes e transtornos
A culpa não é minha. Mataram minha mata ribeirinha
Não adianta murar e fazer piscinas em meus contornos
Quando eu passo, eu levo tudo que é meu
Eu venho de longe, dos altos das montanhas
A correnteza às vezes se assanha
Enquanto busco encontrar as águas do mar
Eu sou o Rio Jucu, o Rio Doce, o Beneventes
Uma avenida aquática sem sinal de trânsito
Sem placas ou acostamento ou limites de velocidade
Eu passo por tantos lugares e sustento tantas cidades
E em troca eu ganho esgoto, engodos, lixo e aterros
Por isso eu fujo para o mar
Aqui há muito dano. Há muitos erros
O mar é vasto, é salgado como lágrima, é impiedoso
E eu sou apenas o rio caudaloso
Um cão com pulgas, sem dono que agora vaga pelas ruas
E pelos cantos de padarias e de hospitais
Sou assim de noite. Sou assim de dia
Eu sou o rio e sigo assim
Sou o rio de Iconha e de Itapemirim
E estou cheio de Dores e de lixo
Eu sou o rio e só quero passar
E é só isso







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Publicado por Alessandro Chakal

Geógrafo formado pela UFES (Espírito Santo - Brasil); Analista Ambiental e Paisagístico; Analista de Planejamento Territorial e Geoprocessamento (SIG/GIS); foi assessor sênior da Frente Parlamentar Ambientalista do ES (ALES); ex-Conselheiro Estadual de Cultura, na câmara de patrimônio ecológico, natural e paisagístico; Produtor Cultural e Músico (vocalista da banda The Windows - Tributo ao The Doors desde 1994), e responsável pela Agência TURISMO-GEOGRÁFICO: Expedições e Excursões - para o Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras (RJ), e para o Pico da Bandeira e travessia da Cordilheira do Caparaó (ES-MG).

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